quarta-feira, 21 de junho de 2017

Machado de Assis por Antônio Carlos Villaça


"O passado ainda é a melhor parte do presente."
(Machado de Assis, carta a Nabuco, 1902.)

Eis que o google nos recorda do 178º aniversário de Machado de Assis!

Lembrei-me que tenho guardado alguns trechos de Antônio Carlos Villaça, que no seu livro Diário de Faxinal do Céu, dedicou lembranças e vivências que teve sobre o nosso escritor...

Compilo aqui:

MACHADO DE ASSIS

"Muitas vezes, falei em Teresópolis sobre o Bruxo do Cosme Velho, como lhe chamou o machadiano Drummond.
Grandes machadianos integrais foram Drummond, Ciro dos Anjos, Graciliano Ramos, Aníbal Machado, Josué Montello (...)
Outro machadiano admirável foi Otávio Mangabeira (...)
No centenário da morte de Machado, 29 de setembro de 1958, Mangabeira fez o discurso oficial, na sessão solene da Academia, à noite, de casaca. Sem uma nota. Sem ler nada. Falava esplendidamente. Uma conferência. Domínio perfeito, completo, da obra de Machado. Os contos. Os romances."
pg. 9/10

"Outro grande machadiano foi Augusto Meyer, o gaúcho, poeta e crítico, que em 1935 publicou o ensaio magistral sobre o niilismo de Machado. São os dois melhores livros a respeito de Machado, o de Meyer e o de Barreto Filho, José Barreto Filho, Introdução a Machado de Assis, 1947, livro denso, filosófico, introdução ao pensamento de Machado.
pg. 11

"Estava Machado em agonia, no seu chalé do Cosme Velho, em que morou por 25 anos. Bateram à porta. E Euclides foi abrir. Era um rapazola. E pediu para ver o agonizante. Lera o Jornal do Commercio, soubera da agonia do escritor. Era seu leitor. Queria apenas vê-lo. Euclides se emocionou. E levou o rapazinho até o leito de Machado, que não percebeu a cena. À saída, Euclides perguntou o nome do moço. E na sua crônica magnífica para o Jornal do Commercio _ "A última visita" _ Euclides escreve esse nome, que seria o nome de um escritor. Astrojildo (Pereira) beijou a mão de Machado agonizante em nome de todos nós, em nome da longa posteridade.
pg. 11

"Quando Machado morreu, escolheram Rui para a presidência e para orador no enterro. É um dos mais belos discursos de Rui. Filosófico. Estuda a obra de Machado. E se refere à sua bondade. "Mestre e companheiro, venho trazer-te, em nome da Academia Brasileira de Letras, nas tuas próprias palavras, num gemido de tua lira, o nosso coração de companheiros." Rui alude aqui ao célebre soneto "A Carolina", de 1904, o mais bonito soneto machadiano."
pg. 12

"Machado de Assis teve o dom da amizade, sabia fazer amigos. Sabia cultivá-los. Era sociável, era gregário. Amava o convívio , humano. Embora fosse tímido, reservado, introvertido."
pg. 55

"A vida de Machado foi a passagem, a trajetória de Machadinho a Machado. Uma ascenção contínua. Moleque de morro, baleiro, pobre, mulato, gago, epiléptico, sem nenhuma escolaridade. E lia francês, inglês, alemão, latim, italiano. Quando morreu, aos 69 anos, aprendia grego. Que aplicação. Que seriedade. Que empenho. Que desejo de subir."
pg. 56

"O fato capital, decisivo do seu destino foi o casamento com a portuguesa Carolina Augusta, mais velha cinco anos, letrada, irmã do poeta luso Faustino Xavier de Novais. Ela veio de Lisboa fazer companhia ao irmão solitário, neurastênico. E em casa dele conheceu o rapaz de 30 anos, que era simplesmente o maior dos nossos críticos. Viveram juntos 35 anos. E o soneto "A Carolina", 1904, dá bem a medida do que foi essa união serena. O mais belo soneto da poética machadiana."
pg. 57

"Em 1897, Machado, que não gostava de fazer discurso, leu dois discursos importantes. O da inauguração da Academia, a 20 de julho de 1897. Breve, conciso, de uma elegância absoluta. Um discurso político. Cada ano, o presidente da Academia relê, de pé, em voz alta, na sessão comemorativa, essa página clássica, harmoniosa, discretíssima, do presidente Machado de Assis.

(...)

E houve o discurso da estátua de Alencar, o lançamento da pedra fundamental, vinte anos depois da morte do romancista. Machado o tratou com extremo carinho. "Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão."
Lembrou a derradeira palavra de Iracema _ "Tudo passa sobre a terra." Uma palavra melancólica. E Machado corrigiu o pessimismo de Alencar. "Nem tudo passa sobre a terra." O pessimista Machado quis discordar do pessimismo alencarino. Nem tudo passa sobre a terra.
E ainda houve o discurso de encerramento do ano acadêmico, o ano da fundação, 1897."
pg. 207
Vejam que Antônio Carlos Villaça era um poeta, você começa o livro que a priori seria sobre Faxinal do Céu, e se depara com ele discorrendo reminiscências sobre Machado de Assis, Alencar, Drummond entre tantos outros...

Livro Quincas Borba, Machado de Assis, 1891, 3° edição - 1899
Boas leituras!

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