quarta-feira, 7 de junho de 2017

Leitura do dia: Os grandes processos da história, Henri Robert


*"Nascera em Guise, a 2 de Março de 1760. Era o filho mais velho de Niccláu Desmoulins, logar-tenente geral civil e criminal no bailio de Guise, funcções judiciaes importantissimas que exercia com honra e consciencia, no meio da consideração de todos os seus cidadãos.
Camillo tinha seis irmãos e irmãs, e seus paes não eram ricos. Entretanto recebeu uma instrucção completa, porque depois de ter feito os estudos primarios num pensionato local dirigido por religiosos, obteve uma pensão para o lyceu "Luiz, o Grande", onde devia ser condiscipulo do jovem Maximiliano Robespierre.
Brilhante alumno, destinava-se a ser advogado no Parlamento, e se4u enthusiasmo cedo já exaltava com a leitura de Demosthenes e de Cicero, Apaixonava-se pelos habitos um tanto theatraes das antigas Republicas no seu trato quotidiano. Estava todo impregnado dessas coisas: sabia de côr os trechos mais eloquentes.
E seu jovem cerebro sentia-se arrastado, por uma invencivel attracção, pela m'ragem da liberadade.
"Desde 1778, dirá elle mais tarde, eu era um dos dez republicanos que se teria difficuldade em encontrar em Paris!"

{ Página 201-202}

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Cheio de bôa vontade pelo bem publico, Luiz XVI indeciso nas medidas a tomar para remediar aos males que constatava, resolveu reunir os Estados geraes para uma consulta nacional.
Desde 1614, que os Estados geraes não se haviam reunido. Tambem a emoção e a alegria foram grandes no pais quando se soube desta decisão.
1.274 deputados deviam ser enviados a Versalhes: 308 pelo clerigo, 285 pela nobreza e 681 pelo Terceiro Estado, para discutirem as modificações a se fazerem no regimen.
Seus concidadãos haviam pensado a principio designar como deputado o pae de Camillo Desmoulins. Porém, com grande tristeza do filho, Desmoulins, que tinha mais gosto pelo estudo do que pela vida publica, recusou esta honra.
Camillo, esse, está em Paris, onde se agita muito. Assiste todo exaltado á chegada dos Estados geraes. Este espectaculo o enthusiasma.
"Foi honetem um dos mais bellos dias de m'nha vida, escreveu elle a seu pae, em 5 de Maio de 1789. Creio que se tivesse vindo de Guise a Paris só para ver esta procissão das tres classes e a abertura dos nossos Estados geraes, não me arrependeria desta peregrinação. Só tenho um desgosto: é não vos contar entre os nossos deputados. Um de meus camaradas foi mais feliz que eu: é Robespierre, deputado de Arras!"

{ Página 204-205 }

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"Foi no domingo, 12 de Julho, que a indignação explodiu em Paris.
Sentimos, pelas cartas de Desmoulins, em que atmosphera de febre, de exaltação ainda contida, mas trepidante, vivia-se alli desde as jornadas de Junho.
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No dia 12 de Julho de 1789, Camillo Desmoulins apparece no Palacio-Real.
Este jovem ardente, exaltado, tremulo de indignação, parecendo trazer comsigo todo o echo da colera nacional, chega suffocado por uma emoção cantagiosa, sobe a uma mesa. Num relance, ha seis mil pessoas em redor delle, e de pé, num gesto theatral, lança, com voz vibrante, estas palavras inflammaveis:
_Cidadãos! Chego de Versalhes! Necker foi despedido! Esta despedida é o toque de rebate para uma São Bartholomeu de patriotas.
"Esta noite todos os batalhões suissos e allemães sahirão do Campo de Marte para vos estrangular.
"Não ha um momernto a perder: é preciso que corramos ás armas e usemos um distinctivo para nos reconhecermos.
"A's armas, cidadãos! A's armas! Usemos todos ditinctivos verdes, côr da esperança! Sim! Sou eu que chamo meus irmãos á liberdade!
E, levantando uma pistola, ajuntou:
_Não me agarrarão vivo. Saberei morrer gloriosamente. Só uma desgraça pode acontecer-me: é ver a França escrava.
Ao mesmo tempo, apanhava uma fita verde e prendia-a no seu chapéo."

{ Páginas 206-207 }

"A 14 de Julho deram-se o assalto e a tomada da Bastilha.

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"A Bastilha foi tomada!" annuncia triumphante, o communicado de Camillo Desmoulins.

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Algumas semanas mais tarde, Desmoulins já celebre pelo papel que representára no Palacio Real, fazia publicar uma brochura intitulada A França Livre, pamphleto satyrico e ataque violento á nobreza e á realeza, escripto num estylo espantosamente vivo, cheio de espirito, vivacidade e ironia, e que teve um grande sucesso.

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Camillo Desmoulins reiv'ndicava para si o titulo de "procurador geral do Lampeão" até a vinda, que predizia proxima, de uma Republica fraternal, inteiramente de bem-estar e amôr, uma Republica que só conheceria a união, a concordia e a paz, que daria alegria a todos os homens eguaes e livres, uma Republica, emfim, "que toda a grande amaria", segundo sua propria expressão."

{ Páginas 208-209 }

*Foi-se mantido a grafia original da publicação do livro.

Excerto do livro Os grandes processos da história
Henri Robert

Tradução J.L. Costa Neves

Livraria Carvalho, Editora

Boas leituras!

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