domingo, 11 de junho de 2017

Leitura do dia: Os grandes processos da história, Henri Robert Final


*"Um rei morto, exclamou elle, não é um homem de menos! Voto á morte talvez tarde de mais para a honra da Convenção nacional!"
É preciso dizermos que Lucilia não fôra feita para a moderação. Pois já reclamava o supplicio de Maria Antonieta.
"Si eu fôse rainha, escrevia ella e, por ter feito a desgraça de meus subditos, uma morte certa me estivesse preparada, não esperaria o momento em que uma multidão desenfreada viesse me arrancar do palacio para arrastar-me indignamente ao pé do cadafalso. Antecipar-me-ia a seus golpes e queria, morrendo, impor-me ao universo inteiro.
"Faria preparar um vasto recinto numa praça publica, ahi faria erguer uma fogueira, e, em frente á fogueira, faria construir um altar.
"Durante tres dias, iria ao pé desse altar orar ao grande Senhor do universo; no terceiro dia, para expirar, desejaria que toda a minha familia de luto me acompanhasse á fogueira; esta cerimonia se effectuaria á meia noite, á luz dos archotes!"
Que mentalidade, a um só tempo sanguinaria, pueril e theatral, denota esta pagina extranha da, no entanto, encantadora Lucilia Desmoulins!

{ Página 223 }

"Poude-se pensar e esperar que a morte de Luiz XVI marcaria o termo daquelles disturbios sangrentos.
Mas, infelizmente ella devia antes marcar-lhe o recrudecimento.
Porque não era tudo haver tomado o poder: era necessario agora, exercel-o.

...

Mas, agora, o governo era a propria Convenção, e ella ia conhecer por sua vez as queixas de uma miseria publica que as desordens haviam augmentado ainda mais.
E Robespierre não devia tardar em falar melancolicamente "do povo credulo e soffredor, sempre propenso a se lastimar do governo que não pode remediar todos os seus males".

{ Página 224 }

"Era necessario dar uma distracção ás queixas do povo, e, já que eram impotentes para alliviar-lhe a miseria, era necessario pelo menos, sacrificar-lhe as victimas expiatorias e desviar para ellas seu resentimento convncendo-o de que era por sua culpa que seus soffrimentos não hav'am ainda sido abolidos.
Depois de Luiz XVI, foi Custine. Depois de Custine, foi Maria Antonieta. Depois de Maria Antonieta, foram os Girondinos!

{ Página 225 }

"E, de facto, as prisões se multiplicavam, sem nunca terem tregua, nem de dia, nem de noite, a tal ponto que, logo, todas as prisões de Paris tranbordavam de suspeitos.

{ Página 229 }

...

"Todas essas incoherencias, todas essas violencias, todas essas prisões e execuções arbitrarias, e esse regimen tão tyranico que impunha, sem parecer mesmo comprehender-lhe a ironia cruel, esta extraordinar'a alternativa: fraternidade ou morte, tudo isto começava a desnortear os primeiros apostolos, os mais sinceros da Revolução!
Camillo Desmoulins, que estivera até então á frente, sentia-se, por sua vez, esgotado.

{ Página 234 }

"Não! a liberdade, esta liberdade que eu adoro, esta liberdade descida do céo, não é uma nympha da Opera, não é um gorro vermelho, uma camisa suja ou um farrapo. A liberdade, é a Felicidade, é a Razão, é a Egualdade, é a Justiça...
"Quereis que eu a reconheça, quereis que eu caia a seus pés, que derrame todo meu sangue por ella?
"Abri as prisões a esses duzentos mil cidadãos que chames de suspeitos, porque, na Declaração dos Direitos, não ha mais casas de suspeição, ha apenas casas de detenção; não mais pessoas suspeitas, mas sômente accusados de delictos fixados pela lei.
"Quereis exterminar todos os vossos inimigos pela guilhotina! Mas terá havido jámais maior loucura?
"Podeis fazer perecer um só sobre o cadafalso sem que angarieis dez inimigos na sua familia ou entre seus amigos?"
Este eloquente appello á clemencia teve uma grande repercussão no publico tanto elle correspondia ao desejo secreto da nação.

{ Página 238 }


"_Camillo Desmoulins desafia a guilhotina! _ exclamou um de seus mais violentos adversarios.

{ Página 239 }

"Em 7 de Janeiro de 1794, pediram a exclusão de Camillo do Club dos Jacobinos.
Esta primeira desgraça, si já era forte, devi ser, não se tinham illusões a este respeito, rapidamente seguida da guilhotina.

{ Página 242 }


"E de facto, tres meses não haviam ainda decorrido e Robespierre entregava a Saint-Just um projecto de acto de acusação dirig'da contra os Indulgentes.

Este acto de accusação foi lançado a 10 de Germinal do anno II (31 de março de 1794).
Juntava a Desmoulins, Danton, Phillippeau e Lacrouix; Fabre d'Eglantine, amigo destes, já estava na prisão.
Na noite de 10 para 11 do Germinal, presos de improviso, os accusados foram conduzidos para Luxemburgo.
Camillo conta que o vendo chegar, Fabre d'Eglantine exclamou:
_Mas, que! fez-se a contra-revolução?"

{ Página 244 }


"Camillo, arrancado dos braços da inconsolavel Lucilia, fazia agora amargas reflexões sobre a grandeza e a decadenc'a de seu destino republicano, nesse palacio de Médicis que lhe seria de prisão, nesse mesmo jardim de Luxemburgo, testemunha de seu romance de amor e de seus sonhos de gloria, na aurora radiosa da liberdade!

...

Escreveu-lhe uma ultima carta, que ella não devia receber nunca, uma longa e dilacerante carta, escripta com lagrimas, e onde punha confusamente seus sonhos e suas queixas, suas ilusões e seu amor, seu desespero e sua altivez, todos os seus pensamentos e toda a sua vida, tudo em que acreditára e esperára, tudo que quizera e amára, e que sentia proximo a se acabar.

[ Página 245 }


"O interrogatorio começou. As primeiras respostas mostram bem o tom grandiloquente da epoca.
Pergunta-se a Camillo sua idade:
_Trinta e tres annos, a idade de Jesus, a idade critica para os patriotas.
E Danton:
_Chamo-me Danton. Revoluvionario representante do povo. Minha residencia? Breve, o nada! Em seguida, o Phanteon da Historia.

{ Página 247 }

"Quando o carcereiro veio para lhes dizer a sentença:
_E' inutil lhe disse Danton; podem conduzir-nos agora mesmo á guilhotina; somos assassinados, isto basta!
Desmoulins, esse chorava em silencio a um canto.

...

Era 16 de Germinal (5 de Abril de 1794), um desses  primeiros dias radiosos de primavera nos quaes a calma luminosa do fim do dia contrastava dolorosamente com os brutaes clamores da rua.
Camillo, aquelle pobre Camillo, ingenuo até o fim, respondia aos seus doestos esforçando-se por convence-los:
_Enganam-te povo! São teus servidores, teus amigos que immolam! Sou eu que em 89 te chamava ás armas pela liberdade! Sou eu que lancei o primeiro grito pela Republica! Meu crime, meu unico crime, é ter derramado lágrimas.

...

Na hora em que sua cabeça cahia, a pobre Lucilia era, por seu lado, accusada de ter conspirado com o general Dillon para salvar seu marido.


...

Lucilia Desmoulins respondeu com calma e se defendeu somente por principio, porque desejava morrer.
Ouvindo pronunciar-se a condenação que a attingia, exclamou alegremente:
Dentro de algumas horas irei rever o meu Camillo!
Depois escreveu á sua mãe estas linhas singelas, de uma emoção tão profunda e tão pura:
"Bôa noite, querida mamãe! Uma lagrima escapa de meus olhos: é para ti. Vou dormir na calma da innocencia. _ Lucilia."

Deante do cadafalso, sua calma extatica não se desmentiu, e esta debil creança loura, que não tinha ainda vinte e quatro annos, morreu como uma Romana.
Assim, o mesmo supplicio reuniu na morte, com alguns dias de intervallo, estes dois jovens, vibrantes e sinceros, que se tinham tanto amado na vida."

{ Página 254-255 }

*Foi mantida a grafia original da publicação do livro.

Excerto do livro Os grandes processos da história
Henri Robert

Tradução J,L. Costa Neves

Livraria Carvalho, Editora

Boas leituras!

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